Entrevistada: Conceição Henriques
Vereadora da Cultura – Caldas da Rainha
Apresentação
Muito
bem, então… Eu sou linguista de formação, tenho uma licenciatura em Línguas e literaturas
modernas, na variante português e inglês, sou de nacionalidade portuguesa,
nasci em Caldas da Rainha, tenho 59 anos de idade. Nasci em 1963 e resido
também aqui Caldas da Rainha.
A
primeira pergunta que eu encontrei aqui e penso que se dirija a mim próprio não
é? Que é “Quais foram as escolhas da minha trajetória que me trouxeram até
aqui, onde estou hoje?”
É
algo difícil, embora eu identifico ao longo da minha vida um conjunto de escolhas
que foram conducentes a função que desempenho hoje, na verdade a história é
complexa, na medida em que eu diria que foi a diversidade de funções que tive e
as interrupções e mudanças de direção bruscas que tive na minha vida que me
permitiram estar hoje a fazer o que eu estou a fazer. E algumas dessas escolhas
até foram algo surpreendentes para mim própria. Portanto, eu fiz o meu percurso
normal de liceu numa época extremamente interessante em Portugal porque eu
tinha 10 anos de idade quando Portugal teve uma revolução que fez Portugal
deixasse de ser uma ditadura e passasse a ser uma democracia. E eu diria que o
facto mais impactante na minha vida foi ter estado presente em um momento tão
interessante da vida de um povo e da vida de até um continente, porque na
Europa não houve outro golpe de Estado na época, não é? Depois houve com a
queda do muro de Berlim e um conjunto de convulsões, mas uma revolução que
tenha interrompido o regime para começar outro que esse outro fosse uma
democracia de facto… foi um momento histórico muito interessante. E penso que
acresce a isto o facto de ter sido uma revolução razoavelmente pacífica embora
tenha começado com um golpe de Estado militar, mas na verdade, não houve
propriamente sangue ou convulsões nas ruas ou as convulsões não foram
convulsões demasiadamente traumáticas para o país. Portanto, este foi (e com 10
anos de idade nós já temos uma consciência muito grande do que é o mundo) portanto,
todo o meu liceu foi pautado por esta relação de revolução e de rutura com o
status quo anterior e com o mundo que estava a nascer na altura e, portanto,
quando eu vou para o para a faculdade já com 18 anos, eu tinha um percurso de 8
anos na época que talvez seja mais rica na nossa vida em que tudo me empurrava
pelo mundo em transformação.
Pronto…
e portanto o meu percurso nasce deste crescimento numa altura de muito impacto
na nossa vida, de um mundo que se transforma e do mundo que se transforma de
uma maneira positiva de uma maneira criativa e no bom sentido, no sentido da
democracia, das liberdades individuais dos direitos, do Estado de direito, do
direito das Mulheres, do direito das minorias, da integração de retornados da
África e também de povos de África que não eram propriamente retornados, que
eram refugiados mas que eram portugueses e portanto se integraram na sociedade
portuguesa. Isto cria um caldo de cultura extraordinária. E quando eu entro na
faculdade e eu entro na faculdade para fazer direito. Eu devo dizer que eu fui
para direito porque os meus professores diziam que eu tinha uma forte
capacidade argumentativa, mas eu não gostei de facto do curso de direito e
então aqui mudei de direção e fui tirar curso de letras línguas e literaturas,
portanto tudo empurraria no sentido de eu vir a ser professora, como vim a ser.
Passei por um período a trabalhar no privado, mas depois acabei realmente a ser
professora por razões que não vêm agora ao caso. E de facto fui professora
durante alguns anos, mas eu achava que a escola não era um ambiente
suficientemente estimulante porque não dava corpo a esta noção de uma sociedade
que se continua a transformar. Aquele impulso da reforma dos anos 70 princípio
dos anos 80 de algum modo desvaneceu-se… Entretanto aconteceu uma coisa bem
interessante para entrada de Portugal na União Europeia (na altura Comunidade Económica
Europeia que é hoje a União Europeia) e foi muito bom do ponto de vista
financeiro (da capacitação das pessoas a diversos níveis até), de uma certa
internacionalização de Portugal. Mas de facto entrou-se num outro registo que
era um registo mais burguês, enfim com o que esta palavra tenha de positivo ou
de negativo. Evidentemente e de facto a minha passagem pela escola não foi,
embora eu tenha gostado muito de ensinar e tenha tido criado relações que
perduram até hoje com alguns alunos e tenha tido uma relação realmente muito diferente
com os meus alunos é muito boa, na verdade eu achava que estava a contribuir
pouco e por volta dos meus 40 anos ou pouco depois… Eu quis ir fazer outra
coisa e foi nessa altura que eu (era do quadro de professores) fiz um pedido de
mobilidade para o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras onde estive durante 15
anos. E aqui eu gostei muito de trabalhar porque na verdade a temática do
estrangeiro é uma temática política (política lato sensu, evidentemente) porque
nos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras nós trabalhamos com as políticas de
imigração e aqui eu entrei numa altura muito boa.
Serviços
de Estrangeiros e Fronteiras
Entrei
em 2007 que era uma altura em que o nosso serviço de estrangeiros e fronteiras
não só era um serviço muito jovem e muito ativo, mas também reconhecido
internacionalmente como modelo a seguir pelos outros países europeus. De facto,
era um serviço para já muito humanizado. Não havia uma forte propensão policial,
embora seja uma polícia, mas também tinha a parte civil e de facto toda a
filosofia do serviço era muito de incentivo a integração e ao encontro do que
eram as melhores práticas de altura e até antecipou algumas boas práticas. E de
facto, assim foi durante alguns anos e a partir de determinada altura eu devo
dizer que também dentro dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras comecei a
achar que o percurso estava a inverter-se não porque tenham ficado
particularmente contra a migração, mas porque se perderam e algumas boas
práticas e alguns bons princípios que deviam ter sido aprofundados e que não
foram. Decaíram e depois também por razões (bem agora não vem ao caso) mas o
poder político também começou a achar que aquele serviço não fazia aquilo
naqueles moldes e, portanto, por um conjunto de fatores que fizeram aqui no
trabalho também já não foi muito apelativo.
A
dada altura, tomei uma decisão - que foi uma decisão à revelia de tudo aquilo
que eu sou, mas deu-me muitas competências para aquilo que estou a fazer hoje
que foi eu ter aceitado uma chefia numa área eminentemente administrativa e com
grande impacto junto ao utente, porque o meu percurso foi sempre em serviços centrais
nas relações internacionais nas relações-públicas da parte da documentação interna.
Eu não via o migrante. Eu não tinha um contato direto.
Durante
6 anos eu estive na direção regional de Lisboa e eu escolhi ir para ali. Tinha
uma componente na qual eu não era nada boa que é a componente administrativa e
eu achei que ao ir para uma coisa que eu não era nada boa, aquilo iria
desenvolver em mim competências que eu precisava ou que eu gostaria de ter. E
de facto não sei se desenvolveu ou não, mas o que é certo é que me deu a noção
do que é o estrangeiro e do que são as problemáticas e os conflitos que aquela
pessoa tem. O conjunto dos migrantes, não é? Aquela pessoa que foi ali e que
tem o pai com uma doença oncológica no outro país e como não está regular, não
pode ir lá falar com ele (provavelmente pela última vez) porque à época se
saísse, provavelmente já não voltava a entrar. Portanto, o meu setor que era o
setor que dá resposta a este tipo de ansiedades, porque era o setor da
comunicação e recebia os pedidos e nessa altura, todos os pedidos excecionais
eram analisados. Realmente consegui dar resposta durante alguns anos para todos
(uma coisa que me deu uma grande força).
As
políticas vivem a 2 tempos: vivem do tempo macro em que nós pensamos nas
pessoas não como pessoas, mas como vimos, é muito importante porque é assim que
conseguimos impactar pessoas. Mas depois tem de haver um outro nível que é o
nível de proximidade, que deve ser desenvolvido pelos serviços que têm proximidade
e esses serviços têm de estar muito alerta para a situação particular. Ou seja,
tudo isto eu acho que me deu algumas condições. Eu nunca tinha estado na política,
mas o que me dá uma visão ao mesmo tempo política das problemáticas é porque
estive na definição de políticas e na aplicação de políticas e ao mesmo tempo.
Não
querendo dizer que tenho mais condições do que ninguém, mas considero que na
minha vida tenho algumas que me deram uma perspetiva assim…
Como
vereadora, claro que isto faz com que eu tenha uma ideia muito concreta do que
quer a minha função e do que quero dos trabalhadores que trabalham comigo.
Eu
Não referi, mas que eu acho que é muito importante no meu percurso que, por
razões pessoais (que também não vem ao caso) eu tive uma relação muito próxima
com o Reino Unido e acho que um português que se relaciona muito com o Reino
Unido está numa posição extraordinária. Os britânicos são muito diferentes de
nós mas tem muitas qualidades e nós também temos muitas qualidades e alguns
defeitos e eles também que se nós quisermos agarrar no melhor que o português
tem de aprender com o melhor inglês eu acho que nós somos fantásticos, porque
temos a proximidade e humanidade que às vezes a cultura britânica tem menos (mesmo
o politicamente correto dos britânicos é neutro não é empático), portanto são
muito politicamente corretos mas não são simpáticos mas depois têm disciplina. Reflete
muito sobre as coisas e não tem medo de se rirem de si próprios e de se pôr em
causa. Os portugueses não gostam de rir de si próprios não gostam de se pôr em
causa não gostam de ser questionados.
Os
portugueses são globais antes da globalização. Eu não endeuso o nosso contato
com o mundo, mas o que é certo é que quando nós portugueses percebemos que conseguimos
falar português com 4 ou 5 povos, isto é maravilhoso, não é?
E
há uma característica em mim que eu acho que é mesmo muito interessante (não é
uma virtude e não um defeito) que e eu gosto muito que é diferente. Eu tenho um
fascínio quase patológico que é diferente, esta curiosidade quase infantil de
olhar para o que é diferente e de me fascinar eu acho que é muito importante
nesta minha função, porque o político (e esta função é uma função política) se
for demasiado fechado relativamente ao que é diferente é um omisso muito
grande.
(então
só para deixar registado aqui, sua função é de Vereadora de Cultura)
Não
sou só da cultura. Sou de cultura, educação, ação social, Juventude
modernização administrativa, recursos humanos, turismo e comunicação.
Como
enxergas o cenário cultural de Caldas da Rainha?
O
cenário cultural das Caldas eu diria que pode ser (não conheço todos portanto
não posso afirmar, mas), pode ser dos mais entusiasmantes do país todo e eu até
diria se calhar, se fossemos para Espanha, ainda assim estaríamos bem
referenciados. Eu Não comparo Caldas com as grandes urbes porque não é justo
comparar uma cidade deste tamanho com uma grande urbe, mas eu devo dizer que
muitos artistas têm dito que é mais estimulante ser residente em Caldas da
Rainha enquanto artista e enquanto integrando uma comunidade artística, porque
é uma cidade de 15 minutos a pé em qualquer direção isso significa que os
artistas não precisam de fazer 2 horas de carro para ir para o grupo, pró
atelier ou para se encontrar com os amigos. Portanto, penso que neste momento
Caldas da Rainha deve ser dos meios, senão o meio mais entusiasmante para uma
comunidade artística de eventos sobretudo nas artes plásticas ou nas artes de
mãos, digamos assim.
Nas
artes performativas também é interessante, mas talvez não tanto, porque nas
artes formativas (sobretudo o teatro) não está no seu melhor momento, embora
nós tenhamos uma companhia de teatro interessante a nível nacional que é um
privilégio para nós, mas não existe uma comunidade de artes performativas tão
alargada como existe nas artes plásticas (até por força da ESAD.CR), mas eu
diria que há uma riqueza imensa.
Dos
desafios
Portanto,
o cenário é de uma riqueza imensa e de um desafio extraordinário. É muito
difícil trabalhar cultura aqui por justamente por ser tão rico que se calhar se
não tivéssemos nada era fácil eu ter aqui um projeto para mostrar a cidade
“Olha o que eu fiz pela Cultura!”. Aqui não. O ambiente cultural de Caldas da
Rainha não está em moldes para que alguém do ponto de vista político venha e se
diga “Fez um grande trabalho!”. Não. Nós quando muito podemos ajudar no grande
trabalho que a sociedade civil está a fazer.
Nós
temos a parte das instalações, dos equipamentos e isso diz muito à autarquia,
mas depois temos os produtores, os criadores, os artistas e isso já diz menos
autarquia. Eu lembro-me, quando foi na nossa campanha, tivemos uma reunião com
um alargado conjunto de artistas e uma rapariga que não me lembro agora quem
foi, que disse “Nós na verdade não precisamos muito da Câmara. Nós precisamos é
que a Câmara não nos coloque obstáculos quando nós queremos fazer ações”. Isto
revela bem que a comunidade de artista em Caldas da Rainha, (a julgar por
aquele fórum em que ali estavam, 10 ou 12 artistas) na verdade apenas quer que
nós contemplamos a cultura potenciamos, nesse sentido, do ponto de vista dos
equipamentos. Aí há muitos desafios porque Caldas da Rainha, tem ao longo dos
anos, vindo a construir muitos equipamentos que constituem um grande peso de
manutenção. No sentido dos equipamentos e da própria da própria estrutura e
isso é um peso por vezes difícil de comportar.
Para
já é preciso pensar e definir prioridades, fazer projeto, aprovar os projetos
recorrer aos financiamentos… portanto, há aqui toda uma linha de tempo que nem
que nós quiséssemos não era possível saltar. Mas o próprio desenvolvimento de
ações antecipativas que nos permitam recorrer aos fundos por exemplo, todos os
projetos de arquitetura que nós precisamos para fazer isto já ficam
inteiramente a cargo da Câmara municipal. Nós não podemos recorrer a fundos sem
ter de facto todo este trabalho de base feito, e é isso que estamos a fazer
neste momento. Neste ano já contratamos um arquiteto a trabalhar no teatro da
rainha (que é o de origem) para fazer uma reformulação (porque, entretanto o
projeto como não avançou precisa ser reestruturado), temos um arquiteto já
contratado para fazer projeto para o museu João Fragoso está bastante
degradado, o mesmo arquiteto para fazer para criar um planeamento para o centro
de artes, temos arquitetos a trabalhar no plano de pormenor da zona sul na
ótica da cultura, lazer, termalismo e bem-estar.
Das
projeções que deslumbra para o futuro
Não
há dúvida nenhuma de que nós temos de assentar a nossa lógica de política
cultural assente na Cidade Criativa como pano de fundo. Estava a falar
das instalações e dos equipamentos que a maioria são nossos e nós efetivamente
temos de fazer um esforço, na medida que os capacitar, mas também no apoio
direto à criação (a Câmara aqui tem um papel de potenciador). Nós não
substituímos os artistas (não é nossa vocação), mas por exemplo (no caso dos espetáculos)
é a nossa vocação evidentemente, através do centro cultural potenciar, dar os
meios ao centro ao centro cultural para poder fazer espetáculos mainstream, as
pessoas querem e a população quer, mas além disto, nós temos de facto de estar
um bocadinho a aprofundar o caminho do apoio à produção e à produção por parte
dos intervenientes locais porque assim é que é uma cultura verdadeira.
Eu
gostaria de criar um ambiente de acolhimento a uma cultura que aponte no
sentido das vanguardas e as vanguardas nascem sempre no underground. Caldas tem
isso de uma cultura eminentemente integral no bom sentido do termo. Esta palavra por vezes fica colada à
marginalidade. Não é. É apenas o que não é mainstream, ou seja, é uma produção
de cultura de emergências, de ruturas e de apontar em novos sentidos, portanto
é aqui que se criam as vanguardas e se eu, enquanto autarca e esta autarquia
conseguir criar um ambiente acolhedor para que os artistas sintam que este é um
ambiente bom, acho que vamos atrair cada vez mais pessoas.
A
Escola Superior de Artes e Design (ESAD.CR) e seu enquadramento na cidade
Tinha
aqui dividido logo nestas 2 vertentes porque elas não podem ser tratadas da
mesma maneira. A primeira que o espaço e as instalações que (foi uma
transformação do antigo hospital, isso é uma parte, foi uma extensão do espaço
em si) é extraordinário é uma riqueza muito grande que a cidade tem ainda por
cima tivemos a boa sorte, a fortuna de o próprio projetista ter o feito um edifício
premiado e reconhecido internacionalmente como um exemplo de urbanismo,
portanto se a escola não estivesse cá, não sei o que lá estaria, mas
seguramente não teríamos aquele edifício. É um orgulho e a cidade devia prestar
mais atenção nisto porque de facto não presta, ou seja, há um divórcio entre o
que é aquele espaço enquanto objeto de valorização. As pessoas valorizam
hospital termal, valorizam os pavilhões do parque, valorizam Museu José Malhoa,
valoriza se calhar até a Câmara municipal, porque é um edifício digno embora
não tenha propriamente valores arquitetónicos e não valoriza talvez o único
edifício que foi objeto de um prémio. Portanto isso é um trabalho que nós temos
de fazer também e a esad também não tem feito.
e
depois o papel da escola na cidade o papel evoluiu de uma maneira muito
positiva porque quando a escola foi aqui instalada há 30 anos, havia um
divórcio, uma desconfiança profunda do ambiente, pouco cosmopolita da cidade
com as pessoas depois que vinham com cabelos azuis e calças rotas e traziam um
cão com uma corda e de facto, houve uma estranheza enorme. Felizmente, com a
convivência essa estranheza diluiu-se e acho que a cidade só iria
verdadeiramente perceber o quanto já interiorizou esta comunidade se ela
desaparecesse. Eu acho que se de repente a ESAD saísse daqui e todos os alunos,
toda a comunidade ligada às artes saísse da cidade, aí talvez então é que a
cidade ia perceber que havia qualquer coisa que não era não é normal, que
estava fora da normalidade a que se tinham habituado.
Portanto,
isso é muito bom, ou seja, a ESAD, enquanto comunidade de alunos, professores e
de alguns artistas que já não sendo da ESAD, ficaram e que são professores e
artistas ao mesmo tempo e que conseguiram criar uma mescla é quase como quando dois
líquidos diferentes se juntam. Primeira ali no momento no qual eles não se colam
e com o tempo eles vão se misturando e às tantas ficam como outra coisa e isto aconteceu
efetivamente. Não direi que não há uma outra pessoa que ainda ralha com os
miúdos que andam com os cães na rua e que têm que ver cabelo azul (agora já não
tem cabelos azuis, mas enfim, com “rastas”, ou o que for), pode haver um, mas
de um certo ponto de vista, a ESAD obrigou os caldenses a ver que o mundo já
não é aquilo que estavam habituados. E isto é bom. Isto é muito bom.
Dentro
daquilo que Caldas deu aos alunos, eu atrever-me-ia a dizer que esta comunidade
ainda conseguiu dar mais às Caldas e Caldas têm obrigação de fazer sentirem bem
para ser um bom negócio justo. Vocês no Brasil até utilizam a palavra “negócio”
de uma leve e mais simpática. Para nós negócio é troca de dinheiro e vocês têm
aquela coisa negócio que é muito mais um “assunto” que nós temos… Portanto,
nesse sentido eu diria que há aqui 2 planos no plano da comunidade ESAD: há uma
relação pacífica pacificada profícua com boas influências de parte a parte e já
digo, eu já não conseguia ver esta cidade sem esta realidade (a maioria das
pessoas também não e talvez não tenho essa consciência), para os alunos também
é bom ter aqui um nicho numa cidade de 15 minutos onde há cafés, onde até se
dedicam a este estudo (tem o Local e tem a Casa Antero e tem mais os cafés do
Silos e o Silos) e há aqui espaços não convencionais mais ou menos até a
ruinosos mas que são mais ou menos adequados como o Casino, aquelas salas ao
lado do céu de vidro que estão mais ou
menos ruinosos mas para a produção artística são extremamente profícuos e
depois tem o Centro de Artes acho que isto também é bom, portanto basicamente é
isto.
A
presença da comunidade estrangeira na cidade
Uma
sociedade só é verdadeiramente desenvolvida se for multicultural. Isto não é
assim hoje. É assim desde que o mundo é mundo e se nós formos olhar para as
grandes civilizações do passado desde Roma e a mesopotâmia, todas elas tiveram
uma coisa em comum em dada altura (ou a Grécia) … em dada altura elas
tornaram-se de tal modo apetecíveis que atraíram pessoas de outras culturas. A Grécia
por exemplo é um caso. A filosofia nasce justamente do confronto de ideias, mas
do confronto ideias de pessoas que vinham de várias sensibilidades… portanto, o
confronto de civilizações é a maneira mais rápida mais eficaz e mais profícua
de criar um novo pensamento criar uma nova sociedade.
Hoje
em Caldas da Rainha nós temos 2 níveis de multiculturalidade temos a
multiculturalidade que decorre de ser uma cidade cultural de ser uma sociedade
ligada às artes através da ESAD e também de outras escolas profissionais que
nós temos como o CENCAL, a Escola de Hotelaria e Turismo também e isso, é
claro, também atrai, portanto, há esta esta dimensão e estas escolas têm alunos
estrangeiros que vem especificamente para Caldas para estudar. Tem o caso da Escola
de Hotelaria e Turismo de uma turma só de estrangeiros.
Este
nível é um determinado nível que é o que hoje em dia modernamente até se chama
expatriados e que se chama curiosamente há uma pessoa que vai estudar o que vai
ter um bom emprego. Não se diz que é um migrante, diz que é um expatriado.
E
depois temos o grosso das pessoas, e o maior volume que são as pessoas que vêm
em busca de trabalho, evidentemente que quando um território atrai muitos
trabalhadores a um desenraizamento que por vezes cria problemas, cria problemas
para a sociedade para onde vem mas também para eles porque eles próprios e eu
dou sempre este exemplo relativamente a Portugal que foi o país que exportou
migração durante largas décadas. E quando nós pensamos quais foram as pessoas
mais prejudicadas deste processo foram as pessoas que saíram e que contribuíram
para lhe dar um exemplo. Por exemplo os portugueses que saíram para os Estados
Unidos ou para o para o para França NOS anos 60 emigraram para França milhares de
portugueses e contribuíram largamente para a reconstrução da França do
pós-guerra e foram reconhecidos, foi uma comunidade se integrou (integrou QB,
pois a integração plena veio nas gerações futuras), mas estas pessoas que
emigraram e que conseguiram com desempenho profissional e até financeiro,
embora não muito diferenciado, em dada altura, tinha uma ambição de regressar
ao país de origem e muitos regressaram e a maioria deles, eu diria que se tiveram
um fenómeno de em dada altura já não serem cidadãos de parte nenhuma. Em França
nunca foram franceses aqui em Portugal já não eram portugueses e ainda de parte
dos meus concidadãos muitas vezes eu percebi até nos serviços públicos, algum
desdém as pessoas que 40 anos depois voltavam já não sabiam falar o português
que se fala hoje.
portanto
as migrações também acarretam problemas em maior ou menor grau para sim porque
as migrações decorrem muitas vezes de coisas que são tudo menos livres e,
portanto, são potenciadoras de problemas e nós temos de enfrentar os problemas.
Atacar os problemas e não as pessoas. As pessoas não são problemas, mas os
conflitos que se podem ou às situações que se podem correr, essas podem ser um
problema e têm que ser tratadas politicamente têm que se criar mecanismos para
fazer uma maior integração.
Uma
autarquia como Caldas da Rainha tem poucos mecanismos, mas os que temos
queremos por a disposição. Eu gostaria muito de inclusivamente criar alguns
mediadores culturais ligados à Câmara municipal para podermos chegar mais
facilmente às comunidades.