Entrevistado: Rodrigo Silva
Professor na ESAD:CR
A ESAD no cotidiano da comunidade
Eu acho que essa essa apresentação nunca chegou a ganhar
um ritual, ou seja, acontecer de as pessoas saberem, terem a consciência de que
as coisas que a escola faz nas áreas todas, não é? Cerâmica, design,
multimédia, teatro, etc... Não há, digamos uma temporada como se diz. Há uns
anos atrás, havia um pouco este ritmo da exposição de finalistas que coincide
no fundo com o ritmo pedagógico do final do ano e havia nessa altura um
momento, uma semana ou 2 semanas em que as coisas eram mostradas. Mas isso foi sendo
diferente de ano para ano e eu acho que quando se vai mudando as coisas acabam
por não ganhar uma consistência que fideliza uma atenção e um interesse e,
portanto, eu sinto que isso tem uma espécie de volatilidade, não é? as coisas
não enraízam, não ganham um ritmo, uma estruturação que vá formando um Público,
uma atenção uma curiosidade, etc. Portanto, eu sinto que há um caminho a fazer
e porque nas escolas de arte, as exposições de finalistas são um momento muito
importante, não é? Sinto também que estes últimos 2 anos foram uma espécie de
buraco negro no tempo, não é?
Agora, se calhar, as coisas vão voltar a ganhar estrutura
e ritmo. Vão, se calhar, ser feitas com mais consciência porque se sentiu o que
é essa privação de uma programação cultural... Eu sinto que, quando olho para o
histórico, nos últimos 20 anos, sinto que houve alturas melhores em que essa
apresentação era mais presente na cidade, por exemplo, outros menos, e isto
está no fundo também sincronizado com a própria fragilidade da temporada
cultural na cidade, que não existe. Se você vir, por exemplo, cidades como
Paris ou Madrid ou até Lisboa tem a Rentrée. Nós sabemos que em setembro
e outubro normalmente existem grandes espetáculos. Nessa altura, no fundo, a
ver com as coisas novas dos criadores que são apresentados neste último
trimestre do ano e que há esta marcação, no fundo de temporadas. Temos uma
temporada da primavera não é o de e depois uma coisa mais no verão.
E aqui eu acho que não só falta essa estrutura de ritmo
no tempo como falta também uma estrutura de disseminação no espaço, não é? São
no fundo 2 problemas: O Tempo e o Espaço. O problema do espaço tem a ver de
facto com a coerência de programação dos equipamentos. Temos ali aquele
conjunto de equipamentos do Centro de Artes, que tem um conjunto de acervos
muito pouco interessante e que têm falta de pessoal profissional para fazer
programação, mediação, animação, etc. O
que faz com que a ligação aos estudantes, ou seja, os estudantes de
programação, que podem fazer dinamização e fazer incubadoras de programação,
por exemplo, seja até uma programação mais ligada a uma contemporaneidade mais
cosmopolita. O que é que isso tudo provoca? Provoca uma ausência na verdade, de
audiência e de público. O público cá é pouquíssimo. Você vai ver, por exemplo,
na sessão de cinema são sempre as mesmas pessoas. Muito poucos.... É um grupo
de alunos e de ex-alunos, mais de 4 ou 5 curiosos da cidade... Porque a cidade,
na verdade (e nisto vou ser muito radical, mas o que eu sinto da cidade), é uma
cidade burguesa, conservadora e extremamente inculta. Ou seja, está
completamente desligada da experiência estética e da experiência da fruição
artística e cultural e é por isso também que ela (a relação entre a ESAD e a
cidade) não aconteceu e, portanto, é uma espécie de double bind como se diz.
Não há Público porque não há uma oferta suficientemente estruturada bem
conceitualizada que crie uma necessidade de uma atenção e como não há essa
oferta não surge o Público, não é? Mas
na verdade também não há Público, ou seja, não há pessoas que exijam. Não há
uma cidadania que exija, que procure coisas e que faça com que os atores
decisórios da cidade sejam no fundo obrigados (entre aspas) não é a ter de
encontrar uma equipa de programação a ter de dar uma orientação aos
equipamentos que têm sobre a sua responsabilidade que seja digamos assim capaz
de responder a uma procura (que como eu dizia) quase não existe, mas que não
existe porque não foi verdadeiramente criada. E quem trabalha em programação
sabe o que isto é: se quisermos uma espécie de circularidade, quanto melhor a
oferta mais Público a quanto mais Público há mais oferta tem de ser
interessante e diversificada. E esta (vamos chamar) “circularidade virtuosa” e
benéfica nunca chegou a acontecer aqui. O Caldas late Night é uma coisa que
ganhou o nome o reconhecimento e que traz os alunos, alunos
antigos da escola vem visitar amigos, vêm rever a cidade a alunos até de
escolas de arte de outro país vem porque era uma noite de grande maluqueira,
etc. Mas eu lembro-me do Caldas Late Night há 20
anos e era uma cena muito mais interessante. Confesso, havia menos estrutura,
mas havia um espírito muito singular que era abrir as casas e toda a gente
fazia coisas ou era música, havia comidas em montes de sítios e bebida e música
e circulação e a ver e agora eu acho que o Caldas
(não sei como é que vai ser este ano) há anos em que é mais interessante outros
menos, mas era uma coisa feita dos estudantes, uns para os outros... Era “Eu
vou te mostrar o que é que eu estou a fazer e eu quero ver...”. Havia esta
espécie de impulso é de curiosidade e depois essa dimensão de festa. Uma festa
no território, não é? Da Peregrinação, do percurso... festa para ver coisas. E
eu acho que houve... continua a haver alguns anos muito interessantes, mas era
mais desigual, digamos assim...
Por exemplo, o Bazar à noite que aconteceu agora, o Bazar
a noite foi uma coisa que aconteceu algumas vezes, foi sempre muito vivido, a
cidade adorou... mas depois era uma coisa que não tinha continuidade porque as
pessoas que organizavam também se cansaram (porque não ganhava dinheiro, se
calhar, suficiente) porque alguns vendem algumas coisas outros não vendem nada
e outros vendem era uma coisa irregular, mas era algo que a própria Câmara
devia de incentivar para que tivesse uma regularidade porque isso traz pessoas.
Tu tens por exemplo a feira das velharias, não é? É importante que as pessoas
saibam que naquele lugar, naquela altura, aquilo vai acontecer eu acho que a
programação cultural tem esse problema em tudo aqui. É um problema de tempo e é
um problema de espaço obviamente que estes problemas estão agregados a outros.
Um problema, por exemplo, de recursos financeiros, de recursos de equipa. Tudo
isso. Mas eles todos são, no fundo, problemas que se vão agravando uns aos
outros mutuamente, não é? Mas eu sinto e não é por acaso, se calhar, que
estamos aqui a ter esta conversa. Que há alguém a fazer uma investigação. Que
pensou em falar com pessoas, porque é como se o momento fosse um momento em que
há até cosmicamente coisas a pedir mudança, não é? Porque eu sinto isso e sinto
que isso tem a ver até com coisas muito concretas.
Há também uma outra dimensão, que é a comunicação, ou
seja, como é que as coisas são comunicadas para mexer com as pessoas. E hoje, a
forma de chegar às pessoas para além da dinâmica das redes, não é só pôr um
cartaz. É preciso perceber onde é que está esse público. O Público das escolas
são milhares de estudantes que em vez de estarem neuroticamente a sexta a noite
nos seus telemóveis a combinar um date deviam de fazer um programa em que vão
sair, vão ver coisas e depois fazem também outras coisas... E assim.… eu acho
que essa dinâmica se perdeu... Eu lembro quando eu cresci no final dos anos 80,
início dos anos 90, havia muitas poucas coisas, mas as coisas que havia tinham
um valor. A ideia de sair para ver uma coisa, ver um concerto ou uma exposição
estava mais enraizada. Hoje os costumes estão individualizados pois está tudo
disponível online. Quer ouvir o que for, vai ao Spotify e essa vivência da
fruição estética e artística como uma coisa física no mundo, de encontrar
pessoas, isso de encontra e partilha tinha de ser recriado por que o consumo se
tornou individualista, atualizado, solitário.
ESAD e alunos estrangeiros
A escola está muito Amadora nisso, ou seja, devia atuar
de uma forma mais profissional na forma como se relaciona com os estudantes
estrangeiros, porque na verdade começa a haver agora mais estudantes
estrangeiros que não são apenas e visitantes temporários e transitórios durante
3 ou 4 meses. Que nós sempre tivemos alunos Erasmus de Alemanha, da Lituânia...
Todo semestre são 50, 60, 70 estudantes Erasmus que vêm e aí os Erasmus é uma
comunidade, é uma dinâmica que eles estão cá para estudar, para viajar, para se
divertir... outra coisa são os estudantes estrangeiros, para os quais eu acho
que não foi criado o enquadramento. Que implica pessoas que estão cá mais tempo
provavelmente têm outras necessidades e que precisam de outras ajudas e de
outro acompanhamento. É verdade que a escola depois (é preciso dizer isto com
toda a franqueza), a escola é pobre, o país pobre, dentro dos países europeus,
portanto, as próprias estruturas que existem são, no fundo, muito muito
básicas: assegurar um refeitório, as próprias residências de estudantes (que
seria uma ajuda) é muito diminuto ou seja não corresponde à população que
estudantes que hoje existe. Mas também é verdade que a escola foi pensada para
700 alunos e hoje têm 1.700, portanto a realidade é completamente diferente e
tudo demora muito tempo. Há um projeto para construir uma residência para mais
200 ou 300 estudantes, mas tudo isso anda a ser pedido há anos e vai demorar,
se calhar, mais 3, 4, 5 anos. Portanto demora muito é uma coisa que eu acho que
é muito dos países latinos, não é? Há uma necessidade, identifica-se a
necessidade e é preciso insistir em pedir. Tudo demora. Uma coisa que deveria
demorar 2, 3, 4, 5 anos demora 20 e isso esgota a energia das pessoas e
sobretudo faz perder oportunidades, não é? Eu acho que no caso dos estudantes
estrangeiros há esse lado, mas também me parece que quando a dinâmica dos
estudantes estrangeiros estava a subir apareceu também esta questão da pandemia
que quebrou um pouco mas parece-me que uma escola como a ESAD tem muito potencial
para ter estudantes estrangeiros e isso implica coisas que nós não tínhamos e
que só agora temos por exemplo ter um site inteiramente em inglês. Nós não
tínhamos isso. É uma coisa básica para quando um estudante estrangeiro for
pesquisar no Google “Art schools in Portugal” uma coisa tão simples
quanto essa, não é? Mas depois toda a rede de acompanhamento. De haver, por
exemplo, uma pessoa que permite ajudar em coisas tão simples quanto encontrar
alojamento. Nós não temos isso. Temos uma pessoa muito simpática que acompanha o
Erasmus (aliás 2), mas eles estão também muito fechados no seu gabinete, ou
seja, eles não têm, toda a montagem da estrutura material extraescola que é
preciso para alguém estudar, não é? E aí eu acho não é não é apenas esta
escola. Eu acho que a todas as escolas em Portugal... Eu Não sei, por exemplo,
se em Coimbra, a Universidade de Coimbra, que tem imensos estudantes
brasileiros, aliás é uma comunidade, são centenas. Eu não sei se eles têm a
coisa mais estruturada ou não. Porque eu sei que eles funcionam muito com
parcerias bilaterais. Eles fazem acordos com universidades e com determinadas
escolas e regiões e vem em pacotes, digamos assim, é outra coisa. Aí
provavelmente haja um acordo que permite dizer “nós asseguramos x de dormidas
em residências”. Coisas dessas... nós não temos isso, ou seja, não temos esses
acordos estruturados. Eu não quero parecer excessivamente crítico, mas como sou
muito, digamos, já tive responsabilidades, isso dá-me também a consciência do
tanto que há para fazer, não é? E não é a minha apreciação de professor que me
dá isso. É a minha apreciação de quem teve de lidar com a equipa e percebe que
pronto que há poucos técnicos disponíveis para acompanhar na escola e que todo
o processo de burocracia que eles têm de fazer só com os alunos de Erasmus já
ocupa todo o tempo deles. Os estudantes internacionais eu acho que houve uma
preocupação de captação, de mostrar que o que temos para oferecer, não é? Como
é que se comunica a experiência pedagógica que pode acontecer aqui. Que tipo de
plano de estudos de disciplinas... Depois a outra coisa é acompanhar as pessoas
que estão cá e aí há uma enorme falta de apoio por coisas muito concretas de
alguém que está a chegar a uma cidade a uma cultura, uma cidade pequena, e que
as coisas não estão suficientemente claras e bem organizadas. Mesmo até para
dar um exemplo muito concreto, uma espécie mapa dos sítios que para tratar de
casas. Você vai ali para tratar de contratos de água, luz, Internet... para
tratar de transporte.