Entrevistada: Lara Almeida
Aluna da ESAD.CR
Sobre a Lara
Frequento Som e Imagem,
A iniciar o projeto final agora, vai iniciar o segundo semestre, mas já é o meu quarto ano cá nas Caldas, porque eu fiz uma pequena paragem onde pude entrar em disciplinas de outros cursos, como teatro, artes plásticas... fiz performance, fiz oficina de voz, oficina de música e pintura... pronto.
Sou portuguesa. Eu nasci em Queluz, em Lisboa, mas vivi a minha infância toda a partir dos 3 anos em Benavente, que fica no ribatejo. É uma Vila, no campo e é isso (risos). É um lugar pequenino, com muito contato com a natureza também.
Eu já tinha estudado em Lisboa, mas não vivia lá. Ou seja, quando fui estudar para Lisboa eu ia e vinha e havia esse contraste entre a aldeia e a cidade. Depois vim para as Caldas, quando terminei o curso na escola António Arroio em Lisboa, e senti-me mais próxima de Benavente do que de Lisboa, apesar de achar que há um cruzamento, ou seja, aqui há um bocado de cultura, de movimento, de energia, de coisas a acontecer, como se pode dizer que existe em Lisboa, mas também é um sítio bastante fechado, onde se sai à rua e se reconhecem as caras à medida que o tempo vai passando, nesse sentido temos bastante proximidade com as pessoas com quem nos cruzamos, porque é isso: tem essa dimensão muito mais de uma aldeia do que propriamente de uma cidade, embora seja uma cidade, portanto acho que é uma mistura entre o campo e a cidade, porque depois também tem o contato com a natureza, a praia, todo esse lado...
Uma das coisas mais interessantes para mim foi poder viver com outras pessoas que não os meus pais e poder partilhar casa com pessoas diferentes, porque cá também temos essa possibilidade. Cá e em outros lugares, quando saímos da casa dos nossos pais.... de viver com outras pessoas e de perceber que há outras formas de vida que não é nossa e depois procurar onde é que nos inserimos ou não, com o que é que nos identificamos ou não. Então nesse sentido acho que uma das experiências mais marcantes aqui foi mesmo isso.
Erasmus
Ficamos em casas com estudantes essencialmente a essa diversidade cultural e depois também o relacionamento com as pessoas de fora, do Erasmus, que acho que também consegui cruzar-me com bastante deles. Como muitos deles entraram na minha turma ou estavam na minha turma eu sempre tentei, por curiosidade também, perceber de onde é que vinham, de onde é que não vinham, de que é que faziam e acabei por ganhar mais à vontade ao longo dos tempos para me relacionar também com eles. Por exemplo, há pouco tempo consegui participar de um filme de uma rapariga, que é a Clara que veio da Polónia e é da Erasmus, acho que consegui viajar um bocado com eles também porque como nunca saí de Portugal, estas pessoas que saem dos sítios de outros lugares do mundo para cá, trazem um bocadinho do lugar deles e sente-se muito. E é bom para mim ter essa capacidade de poder viajar através das outras pessoas mesmo não indo aos lugares, indo com elas quando me cruzo.
Quando não estou a estudar gosto muito de fazer caminhadas, gosto muito de cantar, gosto de não fazer nada... gosto de fazer desporto (ultimamente apercebi-me disso que acho que é importante).
Espaços
A nível cultural, eu diria que há alguns espaços como o Centro Cultural das Caldas da Rainha, a nível de eventos e de exposições e assim, também há o Centro de Artes onde se fazem algumas exposições... também havia um lugar, que agora está menos ativo porque acho que vai ser vendido, ou foi vendido e vai ser feito um hotel, que é ali no parque Dom Carlos e também é um sítio onde eu costumo estar... um edifício chamado Céus de Vidro que é ao lado do Hospital Termal... um edifício abandonado que os alunos da ESAD essencialmente, e os coletivos que existem cá, vão habitando com eventos de música, de performance, de outras áreas e eu costumava ir lá muito nos primeiros anos, porque depois agora já não há tantos eventos por causa do COVID e isso tudo... Mesmo a Praça dos Bares, que também é outro lugar onde eu costumava sair para o convívio, também foi um lugar em que eu já não sinto que vou tanto como ia no início... é porque... pronto, está um bocado mais deserto agora ou não sei...
Rede
Eu acho que também vamos criando laços com os sítios onde vamos, por exemplo às compras ou as lojas que costumamos mais ir. Vamos criando laços, mesmo que não sejam laços muito fortes, há um sentimento de que aquela pessoa nos conhece, apesar de não a conhecer... As vezes sinto que não me permito desenvolver muito uma relação mais funda, porque como são sítios que se vai lá quase para só ir fazer aquilo e não ficar e permanecer, sinto que nunca se consegue ir muito além do “Olá, tudo bem? Como é que estás?” Pronto... mas é bom saber que se talvez encontrar aquela pessoa na rua, por acaso pode-se criar uma relação mais forte.
A ESAD.CR na Cidade
Acho que a ESAD é um ponto forte, não é? Porque ainda há bocado estava ali a almoçar com o pessoal que é de Erasmus e eles estavam a dizer “pois, quando fica de férias, as casas ficam vazias ou ficam envelhecidas. Só se vê cabelos brancos” e eu fiquei a pensar... é verdade! Porque há muita Malta que habita a cidade, que vem, que faz parte, que vem para cá porque está cá estudar e traz essa dinâmica, mas depois também vai embora. Eu não sei... como também, se calhar, estou inserida nesse núcleo e não permaneço cá como alguém que habita as Caldas e não estuda. Não tenho essa visão. Eu acho que nós conseguimos criar alguma dinâmica a nível cultural, apesar de achar que também não é assim tão grande, podia ser maior. Acho que uma coisa bem visível, se sai à rua e é quase como se as Caldas fosse escola e a escola fosse as Caldas... porque saio da escola e parece que ainda estou na escola. É uma extensão... Às vezes isso é um bocado difícil, estar sempre nessa bolha... é um bocado assim, uma bolha. Se calhar, para a produção e para aquilo que nós andamos a fazer, é bom, porque não há maneira de desligar da vida... mas às vezes precisamos dessa distanciação, não é?
Como criar um maior envolvimento
Requer um maior envolvimento com quem exista para além da escola, ou seja, uma vontade maior, nossa também, de nos desligarmos da escola e conhecemos esses locais que à partida e tentar nos conectarmos com eles, mas também acho que é preciso o libertar, o sair, o perder o medo de dizer o que se quer dizer, ou sair da zona de conforto, a manifestação ser física, ser visível, tornar visível, com ações interventivas e colaborativas. Eu tive uma disciplina (antropologia) que abordou muito essas questões, não é? E é isso... acho que parte muito desse lado de tentar implementar esse trabalho antropológico nos próprios artistas, de quererem se aproximar de sentir essa necessidade de nos relacionarmos...
Como ser protagonista
Talvez agora eu já saiba melhor como é que posso ir nesse sentido porque já descobri também melhor aquilo que gosto, porque antes ainda andava um bocado à procura e fazia os trabalhos um bocado mais para mim do que propriamente para os outros... agora também, como me apercebi que o que gosto mais de fazer tem a ver com uma coisa mais performativa, mesmo da música, mesmo do canto, acho que pode ser muito por habitar os espaços com isso... por exemplo os artistas de rua, os músicos que tocam na rua, é uma coisa que eu adoro.