Entrevistada: Ana Paula da Silva Cremonese

Entrevistada: Ana Paula da Silva Cremonese

 

Ana Paula da Silva Cremonese (41) é brasileira e vive em Portugal (Caldas da Rainha) desde 2018. Trabalha como autônoma, instruindo, aconselhando e auxiliando pessoas interessadas em migrar para Portugal, através de informações sobre os processos legais necessários para a concretização deste objetivo.

 

Então, fale-me um pouco sobre a tua trajetória de vida. Quem é a Ana?

Eu vivo nas Caldas há 4 anos e meio, sou brasileira, gaúcha de Porto Alegre (Rio Grande do Sul), tenho 41 anos e 3 filhos que frequentam escola aqui. Sou produtora de eventos e trabalhei no Brasil por quase 16 anos com produção de eventos, mas aqui em Portugal as pessoas não respondem nem aos meus currículos e e-mails enviados.

Quais tuas observações sobre a cidade?

A cidade (como estrutura) eu acho uma cidade boa, porque é uma cidade pequena e tem uma infraestrutura boa. Tem hospital, tem um bom parque, é perto da praia, tem uma temperatura (na maior parte do tempo) amena e foi por isso que eu decidi vir para cá. Por esses motivos específicos. Falando de comunidade da cidade, é uma comunidade ainda muito preconceituosa, que vive ainda (parece) nos anos 90 a 2000. O sentimento é esse.

E como costuma passar teu tempo livre? Quais os espaços que costumas frequentar?

Meu tempo livre é um muito com os meus filhos e aí quando nós não estamos em casa e no parque, na praia (mas geralmente mais na praia), nas ruas da cidade em algum café ou coisa assim. Atualmente vivo no Centro.

Tem alguma relação (ou já teve) com a ESAD?

Não, nada. Conheço algumas pessoas que estão na ESAD.

Qual a perceção que tens sobre a implementação da escola (ESAD) no espaço da cidade?

Eu não vejo diálogo entre escola e cidade. Vejo que tem eventos da escola na cidade, mas eu acho que é uma coisa muito fechada. Muito para os alunos. Para quem está lá mesmo. Não para quem está fora.

De que forma acredita que a escola melhor se mostra e intervém no cotidiano da comunidade?

Eu acredito que seja no evento, aquele que teve agora... no Caldas Late Night. Lá foi o único momento em que eu vi. Mas que também não sei se há uma comunicação efetiva. Eu gostei de participar do evento como visitante, de ir aos lugares, ver e descobrir que tem tantas pessoas potentes, tantos artistas incríveis na universidade. Mas eu acredito que o evento é mais uma festa do que uma apresentação dos artistas. Eu senti isso, porque muitos lugares nos quais eu chegava, estavam fechados. O artista não estava e aí a gente não conseguia saber, a gente ficava curiosa para ver. E as crianças queriam ver também, né? Muitos eles (os filhos) escolheram para ver e aí nós acabávamos não conseguindo. Nós ficávamos um pouco frustrados. Em compensação, as festas, mesmo que eu não quisesse, eu escutava.

Percebeste algum desafio no qual a nacionalidade estrangeira possa ter alguma interferência no teu acesso às oportunidades de desenvolvimento?

Todos. Absolutamente todos. E não só no desenvolvimento do meu trabalho, mas no desenvolvimento da minha vida, como um todo na cidade. Eu, por exemplo tentei entrevistas e reuniões com o departamento que faz eventos da cidade e eles nem marcaram. Nenhuma das vezes responderam. Não me chamaram nem para trabalhar como voluntária, então para mim isso não tem explicação que não seja o preconceito.

Como você enxerga o cenário cultural de Caldas da Rainha? 

Conservador, de uma certa forma... Falando de um contexto geral, elitista e muito fechado. Eu acho que as coisas que são mais legais que acontecem (por exemplo, da ESAD) que são mais abertos e que fazem as pessoas abrirem mais da cabeça e pensarem um pouco, acabam se restringindo muito ao público da ESAD. Por exemplo, para as crianças, que precisam ter essa inspiração, esse acesso e ver que tem coisas diferentes, não conseguem ter acesso a isso de um modo geral (a não ser no evento do Caldas Late Night, se não, não conseguem).

Interagem organicamente nestes ambientes?

Conseguimos participar como público quando tem algum evento, por exemplo alguma leitura de livro, alguma coisa na biblioteca pública.

E como que você toma conhecimento de tudo?

Através de cartazes ou na Agenda Cultural das Caldas.